Tuberculose e brucelose: por que é importante controlá-las?

Sintomas da tuberculose não são perceptíveis aos produtores, pois seu aparecimento é lento

Tuberculose e brucelose: por que é importante controlá-las?

Devido ao impacto econômico e a gravidade das doenças para a saúde pública, o controle e erradicação da tuberculose e da brucelose é de extrema importância.

A médica veterinária Cleusa Regina Billig Vizzotto, associada da Unitec, atua diretamente com rebanhos bovinos e, consequentemente, no combate a estas doenças.

Sintomas da tuberculose não são perceptíveis aos produtores, pois seu aparecimento é lento

Ela explica que a tuberculose bovina é uma doença causada pela bactéria Mycobacterium bovis, que afeta, principalmente, bovinos e búfalos. “Esta zoonose – doença que pode ser transmitida de animais para humanos – é de evolução lenta, em contraste com a tuberculose humana, cujo agente M. tuberculosis é patogênico para o homem, mas não para os bovinos, caracterizada pelo desenvolvimento de lesões nodulares (caroços) que podem ser localizadas em qualquer órgão do animal.”

Esta doença se torna crônica nos animais e é transmissível para o homem, segundo a profissional. Nos bovinos, a doença causa lesões em diversos órgãos e tecidos, como pulmões, fígado, baço e até nas carcaças, podendo ser encontradas também lesões no úbere das vacas. “Dependendo da fase da infecção, os animais podem exibir emagrecimento acentuado e tosse, mas, muitas vezes, as alterações da tuberculose não são perceptíveis aos produtores, pois o aparecimento de sintomas é lento, podendo levar meses.”

Cleusa diz que a doença era muito comum antes da invenção da pasteurização, mas diversos queijos ainda são feitos apenas com leite não pasteurizado e podem ser fontes de contágio, ou pela ingestão de carne e seus derivados mal cozidos e convivência com animais contaminados.

Os animais se contaminam principalmente pela respiração, através do contato direto ou indireto com animais doentes. A transmissão também pode se dar pela ingestão de pastagens, água e alimentos contaminados, principalmente o leite.

Já a brucelose bovina é uma doença infecciosa crônica que atinge os bovinos e se manifesta principalmente por abortos no terço final da gestação e nascimento de bezerros fracos, além de ser uma zoonose também causada por uma bactéria, a Brucella abortus.

Um dos principais fatores de risco para a introdução da brucelose em um rebanho livre é a aquisição de animais sem teste negativo para a doença, principalmente aquisição de machos para reprodução.

Zoonoses causam grande impacto

Sobre o impacto econômico e a gravidade dessas doenças para a saúde pública, Cleusa explica que, no Brasil, calcula-se que por volta de 1,3% do rebanho bovino nacional esteja infectado por M. bovis. Na maioria dos animais infectados, a doença tuberculose é subclínica, mas pode levar a perda de 10-25% da produção, em carne ou leite.

“Quando não se dá a devida importância ao diagnóstico, a doença se torna crônica e sem sinais clínicos alarmantes, mas provoca queda no ganho de peso, diminuição na produção de leite, descarte precoce de animais, eliminação de animais de alto valor zootécnico, condenação de carcaças no frigorífico, morte de animais na propriedade e, até, perda de credibilidade da unidade de criação (propriedade).” Além disso, pode causar enfermidades nos humanos que consomem leite, carne e subprodutos de animais contaminados.

Quanto às perdas que ocorrem pela infecção por B. abortus, Cleusa ressalta que estão relacionadas à baixa eficiência reprodutiva dos animais, com consequente diminuição da produção do rebanho. A ocorrência de abortos provoca um aumento no intervalo entre partos o que ocasiona à diminuição da produção de leite.

A contaminação do homem, pela brucelose, ocorre pelo contato de mucosas ou de soluções de continuidade com o agente. Nos grupos ocupacionais de maior risco (veterinários e peões), isto ocorre durante manipulações de material de aborto ou parto e de carcaças de animais infectados ou materiais de trabalho contaminados. Outras fontes de contaminação para a população em geral é a ingestão de leite cru ou produtos lácteos preparados com leite cru e carne crua, mal assada ou mal cozida contaminadas.

Diagnóstico e prevenção

De acordo com a profissional, a tuberculinização é o teste padrão para a descoberta da tuberculose em bovinos e bubalinos e apresenta como vantagens a alta eficiência dos testes padronizados, a capacidade de detectar infecções recentes (3-8 semanas) e a simplicidade de sua execução. As desvantagens são a possibilidade de reações inespecíficas, a ocorrência de animais anérgicos (não apresentam resposta ao teste), o período de intervalo mínimo entre testes (60 dias) e a exigência de duas visitas à propriedade (dia do teste e dia da leitura-72 horas após inoculação da tuberculina).

Não há vacina nem tratamento viável para a tuberculose bovina. Portanto, é de extrema importância que o produtor leiteiro tenha um manejo sanitário preventivo.

Para detectar a brucelose pode ser feito um teste com soro de bovinos. A detecção de anticorpos no soro ou leite é o meio mais rápido, barato e menos laborioso de diagnóstico e é um indicativo confiável de resposta à exposição a B. abortus.

A brucelose pode ser prevenida por meio da vacinação de fêmeas entre 3 e 8 meses de idade, com a vacina B19. Caso o animal passe dessa idade e não receba a vacina, pode ser utilizada a vacina RB51 em fêmeas bovinas de 3 até 24 meses. Todas as fêmeas vacinadas devem ser marcadas no lado esquerdo da cara.

Animais com as zoonoses devem ser abatidos e/ou sacrificados

A veterinária destaca que, em relação ao agronegócio, o controle e a erradicação da tuberculose bovina são justificados pelo impacto negativo da doença na produtividade pecuária e pela necessidade de se manter o comércio de carne e produtos de origem animal com outros países.

Entretanto, existe uma resistência dos proprietários em aderirem ao sistema ‘teste e abate’, sobretudo em situações de alta prevalência, e pela falta de uma política vantajosa de ressarcimento financeiro aos produtores. “Todavia, com a erradicação da tuberculose bovina, os ganhos com agregação de valor ao produto nacional e ao aumento nas exportações dos produtos de origem animal, podem tornar essa política, em longo prazo, viável economicamente”, acrescenta.

Cleusa afirma que, em uma propriedade com animais positivos, deve-se proceder com esclarecimentos sobre a doença, planejamento de combate, destinação dos animais reagentes, isolamento, desinfecção de instalações, observação de animais não reagentes, intervalo entre tuberculinizações, exame de saúde das pessoas envolvidas no processo e observação de outros animais da propriedade.

“Quando detectada a tuberculose ou brucelose, o médico veterinário habilitado precisa fazer a marcação dos animais positivos e notificar à defesa sanitária e os mesmos devem ser abatidos e/ou sacrificados no período de até 30 dias. O recomendado é que esses animais sejam encaminhados para abate sanitário em locais que possuam serviço de inspeção de carcaças. Se esta opção for inviável, eles podem ser sacrificados na propriedade, devendo ser assistido/ acompanhado pelo serviço oficial de defesa sanitária animal. Igualmente, animais positivos para brucelose, também devem ser sacrificados. E os trâmites são os mesmos para ambas as enfermidades”, esclarece Cleusa.

Programas públicos visam diminuir a incidência das enfermidades

Em vigor desde 2001, o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose (PNCEBT) tem como proposta diminuir a prevalência e a incidência dessa enfermidade, atingindo um número significativo de propriedades certificadas como livres da doença. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) pode indenizar o produtor em até 25% do valor de avaliação de um animal positivo. Mas, para isso, devem ser preenchidos requisitos pré-estabelecidos.

 

Segundo Cleusa, existe no Rio Grande do Sul um programa de indenizações aos produtores rurais, chamado Fundesa, que funciona da seguinte forma: todos os produtores que emitem nota fiscal de venda de animais ou seus subprodutos para a indústria têm retidos um percentual para o fundo indenizatório, que servirá para auxiliar produtores em emergências sanitárias, previstas em legislação, nos seus rebanhos, e relacionadas a enfermidades previstas em seu estatuto, sendo que tuberculose e brucelose fazem parte desse rol.

O desconto do Fundesa no caso dos bovinos e bubalinos, por exemplo, é de R$ 1,0720 por cabeça abatida, sendo que metade é paga pelo produtor e a outra metade pela agroindústria. Já no caso da produção leiteira, o valor é de R$ 0,00126 por litro ou R$ 0,6300 por lote de 500 litros. Esses valores são validados todo início de ano e o valor de indenização varia conforme avaliação.

Saneamento oportuniza a reestruturação sanitária da propriedade

As medidas de erradicação da brucelose e da tuberculose das propriedades visam não somente a saúde dos animais, como a saúde do produtor. Neste sentido, Cleusa destaca que é preciso sempre levar em conta que se procura proteger o humano da contaminação por uma dessas enfermidades ou zoonoses. “O saneamento, mesmo parecendo prejudicial economicamente, é capaz de proporcionar mudanças, oportunizando a reestruturação sanitária de uma propriedade, provocando elevação nos níveis de receitas, podendo torná-las positivas e concretas, para a propriedade ou empresa rural.”

Cleusa, que é associada da Unitec há nove anos, presta serviços para a Cooperativa Santa Clara, de Carlos Barbosa. “Inúmeras organizações, especialmente cooperativas, estão estimulando que seus associados, produtores de leite, realizem testes de tuberculose e brucelose em seus rebanhos, por meio do pagamento de bônus por litro de leite produzido por vacas testadas e negativadas. A Cooperativa Santa Clara, seguindo esse caminho e no intuito de agregar valor ao produto antes da industrialização, também faz com que seus cooperados produtores realizem testes em seus animais de produção. E as cooperativas e algumas empresas, inclusive, pagam total ou parcialmente os testes.”

Nas propriedades onde realiza atendimento, a maioria de pequeno porte, Cleusa diz que, felizmente, não é comum o aparecimento de animais positivos nos testes. “O percentual de animais positivos é pequeno. O fato de estarmos testando rebanhos nessa região, há 10 anos, faz com que diminua a incidência das doenças, pois esses testes periódicos servem para controlar o aparecimento das enfermidades. Mas atendo uma grande propriedade leiteira onde já tivemos que eliminar 135 animais com tuberculose”, finaliza.

Texto: Assessoria de comunicação Unitec

Jaqueline Peripolli / Jornalista MTE 16.999

Foto: Divulgação