Pecuária do Rio Grande do Sul completa um ano com novo status sanitário

​​​​​​​Enquanto vigilância é intensificada, produtores trabalham por perpetuação do novo status

Pecuária do Rio Grande do Sul completa um ano com novo status sanitário

Nesta sexta-feira, 27 de maio, o Rio Grande do Sul completa um ano com a certificação internacional da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) como zona livre de febre aftosa sem vacinação. O status comprova a qualidade dos rebanhos gaúchos, a solidez sanitária do gado criado no Estado e começa a abrir novas possibilidades de negócio para o pecuarista do Sul.

“É um dia para comemorar, mas sem esquecer, a cada momento, que a evolução desse status aumenta o nosso compromisso como instituição. Esse movimento representa mercados que estamos conseguindo conquistar, não só em volume, mas também em valor agregado”, avalia o secretário da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr), Domingos Velho Lopes.

Um sistema dessa magnitude levou muitos anos para ser estabelecido e consolidado. “Nosso trabalho para a evolução do status não é de agora: começou já em 2010, com os primeiros estudos de análise de risco multicritério. A partir deste trabalho, detectamos as principais áreas de risco de ingresso no Estado, para aplicarmos um trabalho de vigilância dirigida”, relata o chefe da Divisão de Defesa Sanitária Animal, Fernando Groff.

O tempo é essencial para que a segurança do produto gaúcho seja não apenas reconhecido no Brasil e por organizações internacionais, mas também e principalmente pelos principais mercados exteriores que já consomem tipos determinados de corte de gado brasileiro, e de consumidores externos que o Rio Grande do Sul pode vir a conquistar a partir da perpetuação do novo status.

Para o presidente da Farsul, Gedeão Pereira, a certificação é um passo importante, mas ainda há trabalho a ser feito. “Nós, como produtores rurais, ainda não usufruímos de nenhum benefício disso. Ainda não evoluímos quanto a questões de mercados. É verdade que é muito pouco tempo e o mercado internacional não funciona de maneira imediatista. Ainda precisamos caminhar para que os grandes mercados do mundo tenham este reconhecimento e que ele seja duradouro, para que não tenhamos nenhum evento nesses próximos tempos”, afirmou ele.

Para que este status seja duradouro, a vigilância estadual continua suas atividades de mitigação de risco, com trabalhos em propriedades rurais, eventos agropecuários e fiscalização de trânsito. “Visitamos, em média, 2% do total de propriedades rurais gaúchas por semestre, o que dá em torno de 5 mil propriedades visitadas por round, totalizando de 10 a 11 mil por ano. Nos últimos três semestres, tivemos um abalo, por causa da pandemia. Nesse período, foram vistoriadas 2,5 mil propriedades, com 3,4 mil bovinos. Já estamos em torno de 4 mil propriedades vistoriadas neste último semestre”, enumera Groff.

Uma importante ação de vigilância ativa, o programa Sentinela atua em conjunto com as forças policiais na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai e a Argentina. O objetivo do programa, bem como do Guaritas (na divisa com Santa Catarina), é coibir o trânsito ilegal, o contrabando e o descaminho de animais e produtos de origem animal em território gaúcho. Em abril, foi concluída uma série de treinamentos para o uso de drones, a fim de qualificar a fiscalização do Sentinela nos 1,2 mil quilômetros de fronteira que o Estado divide com os dois países vizinhos, abarcando 59 municípios gaúchos.

Gedeão destaca a importância da participação ativa do próprio produtor na prevenção contra focos da doença: “O produtor rural é o primeiro e mais importante vigilante. É ele quem está em contato íntimo com a sua pecuária, com os seus animais na sua propriedade rural. Portanto, é o principal sentinela de qualquer alteração do que possa ser encontrado. O sucesso no combate de uma possibilidade de um foco de febre aftosa é realmente a agilidade - do produtor, em comunicar, da autoridade sanitária, em se manifestar e correr para se manifestar e debelar o foco e, evidentemente, que produzir uma vacinação perifocal, que é permitida nos controles modernos preconizados pelo OIE, para que se debele o foco o mais rapidamente possível”.

 

Produtores já negociam cabeças e sêmen com novos e antigos mercados

Em dia 27 de maio de 2021, o Rio Grande do Sul conquistava o status de zona livre de febre aftosa sem vacinação, concedido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). A pecuária do Estado, como um todo, ainda batalha para que esse status seja também reconhecido pelos grandes mercados internacionais. Enquanto isso, produtores rurais e criadores, individualmente, já retomam antigos negócios e adquirem novos clientes a partir da sanidade comprovada de seus animais.

“Em janeiro deste ano, já vendemos um touro para São Joaquim (SC), depois de mais de 20 anos. Ele foi comercializado por R$ 18 mil”, comemora o médico veterinário Gilson Barreto Hoffmann, que administra a Cabanha Santa Lúcia, localizada no município de André da Rocha, junto com a mãe, Soely, de 86 anos, e a ajuda da esposa, da irmã e do irmão.

Durante esses mais de 20 anos, como a família não podia vender animais em pé para o estado vizinho, porque Santa Catarina era livre de febre aftosa sem vacinação e o Rio Grande do Sul ainda não, comercializou sêmen e embriões durante este período. “Antes, a gente tinha um mercado muito bom em Santa Catarina, vendia muitos touros, e quando ele ficou em um status diferente (há 15 anos, reconhecido pela OIE), a gente perdeu esse mercado”, explica Hoffmann. “Mas agora, felizmente, voltamos a negociar com os catarinenses. Para nós, foi uma grande felicidade e inclusive já tem mais gente interessada nos nossos animais. Agora, as coisas vão melhorar muito”, acredita.

“Outra grande alegria nossa é poder voltar às feiras que participávamos. Pretendemos fazer isso ainda este ano. E tenho ouvido manifestações de que mais criadores de Santa Catarina vão participar da Expointer este ano. É um avanço muito grande”, celebra o produtor.

Hoffmann também é diretor comercial da Associação Brasileira de Criadores de Devon e Bravon (ABCDB). Conforme ele, em 2017, o presidente da Associação Britânica de Criadores de Devon, John May, em visita à propriedade, manifestou vontade de adquirir o material genético. “Ele afirmou que o Devon que viu no Brasil é um dos melhores do mundo e que eles tinham muito interesse em comprar principalmente sêmen daqui”, comenta. “O que não era possível antes da conquista do novo status. Era um impeditivo para exportar sêmen para a Inglaterra. Agora vamos poder retomar as negociações de exportar material genético, como sêmen e embriões. Inclusive elas já iniciaram”, fala Hoffmann, com satisfação.

Outra produtora que celebra o novo status sanitário é Ângela Maraschin, que administra a cabanha Gema, de Santa Rosa, com tradição na criação de bovinos de leite da raça Jersey desde 1961. Para ela, a conquista significou a “quebra de barreiras” de trânsito animal com Santa Catarina.

Para a cabanha Gema, o novo status já tem possibilitado novos negócios. Ângela conta que, em novembro do ano passado, vendeu nove terneiras para um criador de Vargeão, no Oeste catarinense. Durante a Fenasul Expoleite, em Esteio, na semana passada, outra terneira foi comercializada para Praia Grande - Sul de Santa Catarina. A fêmea, com título de bezerra menor no julgamento da raça, embarcou no último domingo (22) direto para a fazenda do novo dono.

“A conquista do novo status foi essencial para que o Rio Grande do Sul não ficasse isolado e pudesse avançar no intercâmbio com os criadores de Jersey de Santa Catarina”, avalia Ângela, que também possui, em sua propriedade, a certificação livre de brucelose e tuberculose, situação que permite o ingresso de animais no estado vizinho sem a necessidade de testagens prévias. (Jornal do Comércio)