Operação Tatu

A revolução que freou o êxodo e transformou o trabalho em solo gaúcho

Operação Tatu

Um projeto audacioso, mas necessário diante do êxodo que se acentuava, a partir da década de 50 e 60. O primeiro engenheiro agrônomo da Ascar na região, Paulo Sérgio Kappel, relata que na época uma das funções da Ascar era acompanhar o número de caminhões de mudança que partiam da ‘terra arrasada’, ruma ao Paraná, Santa Caratina e Paraguai. O desafio era transformar o cenário – formado em boa parte por capim barba de bode e outras plantas indicadoras de solo pobre, além de muitas voçorocas – em um local que viabilizasse a geração de renda e a permanência das famílias no campo. É neste contexto que tomou força uma das maiores ações na área de solos já vista no país: a Operação Tatu.

O nome fazia menção aos buracos feitos na terra para que amostras de solo fossem enviadas para análise química em um laboratório da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que na época tinha o Curso de Pós-Graduação em Ciência do Solo, o primeiro na área de fertilidade no país.

 Para desencadear a proposta foi necessária a união de esforços. O Plano Estadual de Melhoramento e Fertilidade dos Solos - “Operação Tatu” - surgiu de convênio firmado entre a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade de Wisconsin, em 1964. Na ponta contou com o papel fundamental da Ascar e, no caso de Santa Rosa, também com a Associação Rural para a execução do trabalho. “Foi a primeira vez que a faculdade de Agronomia e de Medicina Veterinária veio para o campo”, lembra Kappel.

Mãos na terra

Inicialmente a Operação Tatu surgiu em Ibirubá, mas com poucos resultados.  Logo depois passou a ser desenvolvida em Santa Rosa, Ijuí e Erechim. A partir de 1967, por intermédio da Ascar expandiu-se para outros municípios como Três de Maio, Giruá, Tuparendi e Horizontina. No entanto foi em Santa Rosa que o projeto teve resultados mais rápidos e culminou em sucesso significativo. Lavouras demonstrativas foram implantadas e excursões partiam de diferentes regiões para conhecer a experiência em solos santa-rosenses.

Antes da intervenção, as respostas à quantidade de adubo e corretivo colocados no solo eram baixíssimas. Algo não estava certo. “Colocava-se uma tonelada de calcário por hectare e nada acontecia”, comenta Kappel. O presidente da Associação Rural, Pedro Carpenedo, chegou a comprar um aparelho para medir o pH do solo, no entanto, não se chegava a conclusões claras. Com o apoio do professor José Germano Stammil surgiu a alternativa de enviar os solos para análise na UFRGS. Um caminhão com mais de 1 mil amostras de solo para análise foi enviado à Porto Alegre. No laboratório chegou-se à conclusão de que eram necessárias em média seis toneladas de calcário por hectare – e não uma como vinha sendo recomendado. Em alguns casos chegou-se a usar até 15 toneladas por hectare. “Eu lembro que eu ainda era criança na época e cheguei a segurar o saquinho onde o pai colocou a terra para enviar para a análise, na década de 60. Com o resultado, foi necessário colocar cinco toneladas de calcário, assim, nós que plantávamos mandioca passamos a cultivar também milho e soja”, conta Fábio Scalco, filho de produtores rurais, que em 1979 assumiu o desafio de ser extensionista da Ascar, onde permaneceu até 2015, sem nunca deixar de lado o trabalho com o campo.

O apoio do Banco do Brasil neste processo foi fundamental, pois passou a considerar a primeira aplicação de calcário e fertilizantes como investimento, com prazo de pagamento de três a cinco anos, e as posteriores eram consideradas custeio.  Um ensaio inicial foi feito em 12 propriedades avançando mais tarde para toda a região.

Além da aplicação de calcário foram adotadas outras medidas como o destocamento, implantação de curvas de nível e, mais tarde, o terraceamento.  Em regiões de muita pedra, passaram a ser feitos terraços com as mesmas, como por exemplo, em Três Passos.  Na terra vermelha, como em Santo Ãngelo, passaram a surgir os terraços tradicionais.

Protagonistas da Operação Tatu

Citar nomes sempre é difícil. Mas na região de Santa Rosa há alguns protagonistas que podem ser destacados nos primórdios da Operação. Entre eles, os pesquisadores da Universidade de Wisconsin John Murdock e Marvin Beaty, os professores de Agronomia da UFRGS José Germano Stammel, Egon Klant e João Mielniczuk; agrônomo do Escritório Regional da Ascar Paulo Sérgio Kappel; e o presidente da Associação Rural de Santa Rosa, na época, Pedro Carpenedo. Também apoiaram na área de crédito o presidente do Banco do Brasil Nestor Jost e o diretor da área rural do Banco Central Ari Burger.

Os resultados da Operação Tatu na fertilidade do solo e na guinada econômica motivou a continuidade do trabalho com solos que foi avançando de acordo com as necessidades de cada década.

A Operação Tatu e a evolução do trabalho com solos são sinônimo do desenvolvimento da região, refletindo em um cenário de organização social e crescimento econômico, bem como nas perspectivas futuras de sustentabilidade no meio rural.